3Módulo

Parte 2

As regiões africanas

África Setentrional (AS)

Muito bem, pessoal. Agora é a hora de conhecermos um pouco mais sobre as regiões da África e a história delas. A primeira região que vamos estudar é a África Setentrional, que compreende a área marcada de alaranjado no mapa abaixo (figura 31).

Algumas divisões do território africano também situam o Egito e o Sudão nessa região, mas optamos por trabalhá-los na África Oriental, já que eles fazem parte de uma região cultural mais próxima dos antigos reinos, como o da Etiópia.

A África Setentrional também é chamada de Norte da África. Os seis territórios que a compõem são conhecidos como Magrebe. Essa palavra é árabe e significa “onde o sol se põe”. Podemos diferenciar o “Pequeno Magrebe”, composto por Marrocos, Saara Ocidental, Argélia e Tunísia, do “Grande Magrebe”, que inclui também a Mauritânia e a Líbia. Os limites geográficos do Pequeno Magrebe são o Mar Mediterrâneo a norte, o Oceano Atlântico a oeste, o Golfo de Gabes a leste e o deserto do Saara a sul.

O Magrebe é quase todo tomado pelo Deserto do Saara, mas na porção costeira, próxima ao Mar Mediterrâneo, está a Cordilheira do Atlas, o que garante chuvas regulares para essa estreita região. É bem ali que estão localizadas as principais cidades da África Setentrional e a maioria das práticas agrícolas, como o plantio de oliveiras e videiras.

O conjunto de populações que habitam o Magrebe é conhecido, na tradição árabe, como berbere. Mas essa palavra não designa uma etnia específica, isto é, não existe o povo berbere. O que existe são falantes de línguas berberes, que pertencem a várias etnias diferentes.

Ainda na África Setentrional podemos identificar, na região da Mauritânia e ao sul da Argélia, uma área denominada Sahel (figura 34). Trata-se de uma faixa de transição entre o deserto do Saara e a Floresta Tropical e corta 15 países africanos, conforme mostra o mapa abaixo. Nessa zona, predomina uma vegetação de estepes. Vários reinos africanos, denominados Reinos Sahelianos, desenvolveram-se nessa zona e se beneficiaram de rotas comerciais através do deserto.

É importante pensarmos na África Setentrional sempre em relação à África Oriental – que trabalharemos logo a seguir –, pois os países que fazem parte dessas regiões não foram agrupados, necessariamente, devido à posição geográfica, mas porque possuem semelhanças culturais, linguísticas e históricas que aproximam seus povos. Confira abaixo algumas etnias que fazem parte dessa região da África.

O que é um país de jure?

Trata-se de um país que não tem a sua independência plenamente reconhecida pelos organismos internacionais. Esse é o caso de San Marino e do Principado de Mônaco, por exemplo, que ficam na Europa e dependem de outros países para protegê-los em caso de guerra. No caso do Saara Ocidental (figura 32), a situação é bem mais complicada, pois esse país tem seu território disputado pelo Marrocos e pelo movimento independente Frente Polisário. Atualmente, o Saara Ocidental é um protetorado da Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Vídeo: África Setentrional

Etnias da África Setentrional

 

Vamos conhecer, agora, três etnias que habitam essa região do continente africano: os tuaregues, os mozabites e os zenatas.


Tuaregues

Os tuaregues são pastores seminômades de origem berbere que já controlaram as rotas comerciais de caravanas através do Deserto do Saara. Em geral, são muçulmanos e habitam, principalmente, a região sahariana do Norte da África. Estima-se que existam cerca de 1,5 milhão de tuaregues no continente africano, espalhados em vários países, como Argélia, Líbia, Mali, Niger, Burkina Faso e Nigéria (figura 35).

Apesar de serem minoria nos países onde habitam, esse povo possui uma unidade cultural muito grande, com uma sociedade bem estratificada, dividida entre nobres, grupos tributários e classes marginais (líderes religiosos, artistas e ferreiros). São, frequentemente, chamados de povo do véu ou povo azul do Saara. Nesse último caso, o nome deriva dos turbantes anis usados pelos homens. Com o suor, a tinta escorre e mancha a pele deles, deixando-a azul (figura 36). Além de protegê-los da incidência do sol, os tuaregues acreditam que o véu os protege dos maus espíritos e, por isso, usam-no o tempo todo, mesmo entre os familiares.

Com o fim do período colonial, o estilo de vida tuaregue se alterou profundamente e muitos têm desistido de ser nômade para se assentar em vilarejos e cidades.


Mozabite

Os mozabites também têm origem berbere e vivem em M’zab (Argélia), no norte do Saara. Eles moram em oásis que ficam espalhados por essa região. Eles também são encontrados como vendedores na maior parte das cidades argelinas – as melhores mercearias e mais atraentes, com certeza, serão deles (figura 37). A habilidade comercial não é nenhum pouco recente, uma vez que, durante a dominação Turca, eles tiveram o monopólio dos banhos públicos, dos mercados de carne e dos moinhos da Argélia.

Esse povo não se parece muito fisicamente com os outros grupos étnicos do Norte da África, pois possuem rostos e corpos redondos, contrastando com o físico magro de outros povos. Eles falam uma língua chamada mozabite, uma variante do tamazight, e muitos também sabem falar árabe.

O povo mozabite possui um conselho de anciãos que decide todas as regras da comunidade. Outra curiosidade é o fato de que essa etnia só realiza casamentos comunitários e apenas uma única vez por ano. Durante essa festa, todos os homens se vestem do mesmo jeito, desde o mais rico até o mais simples.


Zenatas

Os zenatas foram uma das três grandes confederações Berberes muçulmanas da Idade Média, da qual descendem várias etnias atuais. Também é um dos grupos etnicos que invadiu a península Ibéria no século VIII d. C. Foram, igualmente, os responsáveis por fundar vários Estados berberes na África do Norte e na Europa.

No início, os zenatas eram nômades e habitavam as planícies do Magrebe, mas depois se estabeleceram em vários reinos da região. Falavam uma língua da variedade berbere e também sabiam o árabe. Provavelmente, são originários da região oeste da Líbia, de onde vieram durante a época dos romanos e se concentraram em Trípoli e na Argélia.

Os zenetas, originários de Aures, foram os primeiros a montar um cavalo com sela e estribos. Foram eles que forneceram os melhores cavaleiros do Magrebe. As selas eram cobertas com sedas, meticulosamente bordadas pelas mulheres.

África Oriental (AOR)

A África Oriental fica na porção leste do continente africano, ou seja, no lado direito do mesmo, conforme nos mostra o mapa abaixo (figura 41).

É importante destacar que existem várias maneiras de se definir o que seria a África Oriental. O mapa acima mostra apenas uma delas. Essa região é um belo exemplo de região geográfica que pode ter inúmeros tipos de delimitação, variando de acordo com a perspectiva do estudo que se busca fazer no local.

Assim, há pesquisadores que consideram os limites naturais para indicar a composição dessa região. Para eles, a África Oriental seria formada por todos os países que são banhados pelo Oceano Índico, desde a Somália até a África do Sul. Mas essa divisão exclui países como a Etiópia, o Egito e o Sudão dessa região. Outra divisão, mais aceita pelos pesquisadores do continente, é a apresentada acima, que não se baseia apenas em critérios geográficos, mas também históricos e políticos. Assim, alguns dos doze países selecionados para compor essa região são banhados pelo Oceano Índico, mas todos eles possuem um longo histórico de contatos com as populações da Península Arábica e de outras regiões do continente asiático.

Dentre as várias organizações políticas e sociais que compõem a África Oriental, a mais famosa é a egípcia, considerada uma das grandes civilizações da antiguidade ocidental, mesmo que esteja no lado oriental do Mapa Mundi, conforme vimos no Módulo I. Você deve se lembrar da famosa imagem abaixo, tão difundida nos livros didáticos (figura 42).

A África Oriental possui uma grande importância para a história da humanidade, porque ali está a região de Rift Valley, onde foram descobertos alguns dos mais antigos fósseis de hominídeos da história. Trata-se de uma região que possui vulcões e terremotos. Ela se estende por cerca de 5 mil km, passando por Djibouti, Etiópia, Quênia e Tanzânia, conforme nos mostra o mapa abaixo.

No começo do século XXI, três crânios de Homo sapiens foram encontrados na Etiópia, país que fica na África Oriental. A datação dos ossos revelou que eles possuíam cerca de 160 mil anos de idade. Mas não é apenas essa descoberta que torna o continente o berço da humanidade. Os fósseis dos hominídeos (ancestral do homem moderno) mais antigos também foram encontrados nesse mesmo país. O caso mais famoso é o de Lucy, uma Austrolopithecus aferensis que possui cerca de 3,2 milhões de anos.

Vídeo: África Oriental

O homem veio do macaco?

 

Não é bem assim. A ideia de que viemos dos macacos vem da noção errada de que a evolução é um processo linear, no qual umas espécies vão substituindo as outras. Mas não é isso o que acontece.

O ser humano é um primata da espécie Homo sapiens. Em latim, essa expressão significa homem sábio. Somos os únicos primatas bípedes que ainda sobrevivem no planeta Terra, mas diversas outras já passaram por aqui.

Embora os chimpanzés e os gorilas sejam bem semelhantes aos hominídeos que deram origem ao homem, nenhum deles é nosso ancestral. Mas muito longe na linha da evolução, por volta de 9 milhões de anos atrás, tivemos um ancestral em comum. Este, acabou dando origem a duas espécies distintas. Uma delas se tornaria o macaco. A outra, percorreu um caminho diferente até chegar ao homem moderno. Esse ancestral comum também era um primata, assim como nós e os chimpanzés.

Etnias da África Oriental

Vamos conhecer, agora, três das várias etnias que podem ser encontradas nessa região do continente africano: os Tutsi, os Maasai e os Dinka.


Tutsi

Os Tutsi são um povo banto que habita, principalmente, regiões da Ruanda e do Burundi e não se distinguem muito do grupo étnico majoritário nesses países, os hutus. São a segunda maior população nesses países.

Os Tutsi do Norte residem em Ruanda e são chamados de Ruguru, enquanto os Tutsi do Sul habitam o Burundi e são conhecidos como Hima.

Acredita-se que a divisão entre Tutsi e Hutus tenha uma raiz social, uma vez que os tutsis foram a classe dominante daquela região entre o século XV d. C. e a colonização da Ruanda e do Burundi.

Quando os colonizadores fizeram o censo da população, estabeleceram um esquema de classificação bem simples. Eles definiram como Tutsi todos aqueles que possuíam mais de dez vacas (um sinônimo de riqueza) ou quem tinha uma estrutura física diferenciada, com nariz ou pescoço longo. Para os europeus, os Tutsis possuíam características faciais que eram atípicas entre os povos bantos.


Maasai

Os Maasai são uma cultura seminômade do Rio Nilo que habita o sul do Quênia e o norte da Tanzânia. Eles estão entre as etnias mais conhecidas da África, uma vez que ficam próximos aos parques dos Grandes Lagos Africanos e usam roupas e acessórios distintos. Sua cor oficial é o vermelho e, por isso, eles se distinguem bem das outras etnias da região.

Os governos da Tanzânia e do Quênia têm instituído programas para encorajar os Maasai a abandonarem o estilo de vida seminômade tradicional, mas algumas pessoas ainda resistem a isso. Recentemente, a confederação internacional Oxfam sugeriu que o modelo de vida dos Maasai fosse adotado nos países africanos como uma resposta às mudanças climáticas, uma vez que eles têm uma habilidade de plantar nos desertos e matagais.

Como são nômades, os Maasai constroem casas temporárias, com esterco de vaca e barro. As casas são feitas seguindo a forma de um círculo e, à noite, os animais são conduzidos ao centro, para ficarem protegidos da fauna selvagem.

Os Maasai falam uma das línguas da família Nilo-Sahariana, mas também são educados nas línguas oficiais do Quênia e da Tanzânia, o Swahili e o Inlgês. Várias aldeias Maasai recebem muito bem os visitantes que vão para lá conhecer a cultura, as tradições e o estilo de vida deles.


Dinka

Os Dinka são um grupo étnico que habita a região de Bahr el Ghazal, que fica no Sudão do Sul, na região do Rio Nilo. São, majoritariamente, agropastoris, ou seja, cuidam do gado em acampamentos ribeirinho na estação da seca e plantam algumas variedades de grãos em assentamentos fixos durante a estação chuvosa.

Estima-se que existam cerca de 4,5 milhões de pessoas dessa etnia, constituindo 18% da população do Sudão do Sul. É o maior grupo étnico desse país. Eles são frequentemente notados por causa de sua altura. Inclusive, um dos Dinka mais conhecidos é a modelo Alek Wek (foto ao abaixo). Acredita-se que os Dinka e os Tutsi sejam os povos mais altos da África.

Falam a língua Dinka, pertencente à família de línguas nilíticas. A palavra Dinka significa pessoa nessa língua, que é escrita usando o alfabeto latino com alguns acréscimos.

 

África Ocidental (AOC)

Vídeo: África Ocidental

A África Ocidental fica a oeste do continente africano, ou seja, no lado esquerdo do mapa, conforme podemos observar abaixo

Assim como a África Setentrional, uma grande parte da África Ocidental fica localizada no Deserto do Saara. Exatamente por isso, a paisagem dessa região é formada por imensas regiões desertas e algumas partes de floresta. Ao longo do golfo da Guiné, do Gâmbia à atual República dos Camarões, estende-se uma região úmida, coberta de florestas, às margens do Oceano Atlântico. Os recursos naturais de antes de 1500 d. C. eram os óleos de palma (azeite de dendê), o vinho da palma, o sal, a madeira da qual se retirava o material das casas e cortiças. A agricultura estava voltada para a produção de inhame, banana, arroz, mandioca e milho.

Uma região cultural importante da África Ocidental é conhecida por yorubalândia, nome que faz menção aos povos da matriz linguística Yorubá que moram por lá. Essa região compreende parte da Nigéria, do Benin e do Togo, conforme mostra o mapa abaixo. Os Yorubanos formaram, juntamente com os Bantos, da África Central, os principais segmentos culturais da Diáspora africana para as Américas. As influências desses povos podem ser encontradas no Brasil, em Cuba, Porto Rico, Trinidad-Tobago e Haiti.

Os povos yorubanos eram essencialmente agricultores. Suas instituições familiares se baseavam em laços e tradições familiares, com aldeias habitadas por várias linhagens e governantes escolhidos pela idade ou pela proximidade de parentesco com o grande ancestral comum. Apesar de o cristianismo e do islamismo terem chegado até essa região, os yorubás se mantiveram fieis às antigas tradições politeístas, tendo os orixás como deuses. Ao contrário do que muitos acreditam, a crença nos orixás não é característica de todos os povos africanos, mantendo-se exclusivamente yorubana. Mas como eles foram escravizados e trazidos para a América, suas crenças acabaram por influenciar o cristianismo difundido no Brasil, imposto pelos portugueses e espanhóis, formando as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

Cerca de 50 mil africanos dessa região foram escravizados e levados para as .Américas no século XVIII d. C., período do auge do tráfico de pessoas. No ano de 1815 d. C.o tráfico foi oficialmente abolido, mas a submissão dos habitantes da região continuou. Ela só teve fim quando os ingleses, povo que tinham aprisionado a maior parte dos yorubanos, foram mais energéticos na repressão ao tráfico.

Etnias da África Ocidental

Vamos conhecer, agora, um pouco sobre duas das etnias que habitam essa região do continente africano: os igbos e os fons.


Igbo

Os Igbos são um dos maiores grupos étnicos da região leste da Nigéria e também foi um dos povos mais atingidos pelo comércio escravagista. O tamanho da população dessa etnia fora da África é desconhecido, mas muitos afro-americanos e afro-caribenhos são descendentes de Igbos. Na parte rural da Nigéria, os Igbos, em sua maioria, são artesãos, fazendeiros ou comerciantes. A colheita mais importante é a de inhame e celebrações são realizadas anualmente para comemorar a produção desse tubérculo.

Antes do colonialismo britânico, os Igbos eram um grupo politicamente fragmentado. Havia variações culturais, como diferentes estilos de arte, vestuário e línguas, que justificavam essa cisão. Os vários subgrupos existentes estavam organizados em clãs e não havia muitos chefes, aristocracia hereditária ou realezas.

Mas essa realidade mudou com a chegada dos britânicos, no começo do século XX. Nessa fase, os Igbos desenvolveram um grande senso de identidade étnica e os conflitos regionais foram cessados em prol da formação do estado independente de Biafra. Em 1967, eles conseguiram alcançar esse objetivo, mas Biafra só existiu até 1970, quando a região em questão voltou a fazer parte da Nigéria.


Fon

O povo Fon é um grande grupo étnico e linguístico da África Ocidental, especificamente de Benin e do sudoeste da Nigéria. Chega a mais de 3,5 milhões o número de pessoas que pertencem a essa etnia. A língua Fon é predominante na região sul de Benin e pertence ao grupo linguístico Gbe.

A maioria dos Fon, atualmente, vive em vilas e cidade pequenas, em casas construídas com barro e telhados de ferro. Entre os séculos XVIII d. C. e XIX d. C., as cidades Fons foram grandes centros comerciais de venda de escravos.

A cultura Fon, além de ser patrilinear, permite a poligamia e o divórcio. Os funerais estão entre os eventos mais importantes dessa cultura e podem durar vários dias. Quando alguém morre, eles acreditam que parte da pessoa permanece viva e é reencarnada.

Ainda que os Fon se identifiquem como cristãos, muitos deles praticam a religião nacional de Benin, o Vodu. Essa religião é teísta-animista, ou seja, acredita em deuses vinculados aos elementos da natureza. O nome vodu, que por aqui possui inúmeros sentidos negativos, é apenas o nome Fon para Deus ou espírito. Na imagem ao lado, é possível ver o espírito vodu encarregado de realizar as ordens dos deuses rapidamente.

 

África Central (AC)

Vídeo: África Central

Como o próprio nome indica, essa região fica bem no centro do continente africano, conforme podemos observar no mapa abaixo:

Essa divisão da África Central é completamente arbitrária e obedece mais a fatores geométricos e econômicos que a questões políticas, históricas ou naturais. Nessa região, existe uma questão geopolítica de disputa de território. Trata-se da República de Cabinda, entre o Congo e a República Democrática do Congo. Mesmo sendo uma província da atual República da Angola, essa região reivindica autonomia de território baseada em questões históricas e de identidade. Caso se consolide o pleito dos povos de Cabinda, a atual República Democrática do Congo terá sua saída para o Oceano Atlântico fechada.

A diversidade paisagística e climática da África Central também é muito grande, variando de áridos semidesertos no Chade a úmidas florestas no Congo. Nesse sentido, a África Central engloba paisagens naturais e culturais que vão desde o Deserto do Saara, passando pelo Sahel e por regiões de pastagens até espessas florestas tropicais (figuras 59 e 60).

No aspecto histórico, essa região foi responsável pela difusão das línguas e culturas bantas. Essas culturas, além de diversas, espalharam-se por grande parte do continente africano, conforme a gente aprendeu anteriormente.

Com o fim da época colonial, muitos conflitos eclodiram na África e um dos países que mais tem sofrido com as guerras é a República Democrática do Congo. Isso acontece porque a região é abundante em recursos minerais e possui uma grande diversidade étnica.

Outro país da região que enfrenta graves problemas com conflitos é a República Centro-Africana. Apesar de possuir bastante recursos minerais, como urânio, petróleo, ouro, diamantes, madeira, energia hidrelétrica e muitas terras aráveis, esse país está entre as dez nações mais pobres do mundo.

Os pigmeus africanos

Na região da África Central há povos pigmeus, ou seja, que possuem uma baixa estatura. A palavra pigmeu significa “Negro Anão”. Estima-se que há entre 250 e 600 mil pigmeus na floresta tropical do Congo. Eles moram em casas feitas com varas, troncos e galhos e a maior parte deles sobrevive como caçadores-coletores, pegando os produtos silvestres fornecidos pelas florestas. Também são bons caçadores e destilam milho e frutas.

Etnias da África Central

Vamos conhecer, agora, três dos povos que habitam essa região: os Tubu, os Luba e os Gbaya.


Tubu

Grupo étnico que vive, majoritariamente, no norte do Chade, mas também podem ser encontrados no sul da Líbia, nordeste do Niger e noroeste do Sudão. Eles falam uma língua chamada Tebu, que pertence à família de línguas Nilo-Sahariana. Possui uma população de aproximadamente 500 mil pessoas, que habitam a região que fica ao redor das Montanhas Tibesti.

Em sua maioria, são muçulmanos e, apesar de historicamente viverem como pastores nômades, atualmente muitos já são seminômades. A sociedade Tubu é baseada em clãs, sendo que cada clã possui determinados oásis, pastagens e bens. São divididos em dois povos associados, os Teda e os Daza. Acredita-se que esses povos tenham tido uma origem comum, mas, atualmente, eles falam línguas diferentes (Tedaga e Dazaga, respectivamente). Os Daza habitam regiões do Saaara e se consideram um povo guerreiro. Os Teda são menos numerosos que os Daza e podem ser encontrados no Chade.

Na Líbia, esse povo foi perseguido pelo governo e sofreu com a discriminação, tendo direitos básicos, como educação e saúde, negados pelas autoridades.


Tuba

Os Luba são um dos maiores grupos étnicos da República Democrática do Congo. Eles falam as línguas Luba-Kasai, Luba-Katanga e Swahili. O Reino de Luba foi um grande estado pré-colonial da África Central.

Apesar de a região habitada por essa etnia ser rica em recursos naturais, como ouro, marfim, cobre e mármore, eles ficaram mais conhecidos por serem ótimos entalhadores, produzindo máscaras (que eram utilizadas como símbolo de realeza) e outros artefatos. Também gostam de trabalhar com a cerâmica, produzindo potes para comercializar.

Os Luba tendem a se aglomerar em pequenas vilas, com casas retangulares e voltadas para uma rua única. A agricultura é baseada em corte e queima dos cultivos feitos em áreas de solo bom e, geralmente, é incrementada com a caça e com a pesca.


Gbaya

Os Gbaya é um povo que vive na região sudoeste da República Centro-Africana, mas também podem ser encontrados ao norte da República do Congo e ao noroeste da República Democrática do Congo. Estima-se que, no final do século XX, existiam 970 mil pessoas dessa etnia. Eles são o maior grupo étnico da República Centro-Africana, perfazendo 34% da população do país. Eles falam a língua Adamawa-Ubangi, da família de língua Niger-Congo.

Esse povo tem origem no norte da Nigéria e migrou para essa região no começo do século XIX, fugindo da jihad (guerra “sagrada” dos muçulmanos) que estava acontecendo na região. Apenas 20% dos Gbaya são muçulmanos. A maior parte da população é cristã, religião que foi difundida entre eles no começo do século XX. Ainda assim, práticas animistas tradicionais permanecem entre a população.

A sociedade Gbaya está organizada em clãs patrilineares. Tradicionalmente, moram em casas de barro no campo, praticando o cultivo de milho e mandioca e criando gado. Grandes personalidades políticas da República Centro-Africana são Gbayas, como os antigos chefes de Estado Ange-Félix Patassé e François Bozizé.

 

Africa austral ou meridional (AA)

Vídeo: África Meridional

Essa região ocupa o sul do continente africano, conforme pode ser observado no mapa abaixo (figura 67).

O termo austral significa sul e meridional e se refere a toda área que é próxima ou que circunda qualquer região sul. Assim, tanto os países da costa oeste meridional quanto da costa leste, que estão em contato com o Oceano Índico, compõem a África Meridional, pois estão próximos ao sul do continente africano. Além dos países continentais, a África Meridional também é formada pelas ílhas Madagascar, Ilhas Maurício, dentre outras.

A cultura banta, estudada anteriormente, também esteve presente em grande parte dessa região e foi responsável pela difusão de tecnologias de cultivo, domínio de metais e pela matriz linguística de várias populações, tanto na região meridional do continente africano como nas Américas.

A geografia da região é diversificada, variando entre florestas, pastagens e desertos. É riquíssima em recursos minerais, como jazidas de ouro, carvão, diamante, cobre, titânio, dentre outros, e, por isso, é bastante explorada.

Os dois países mais desenvolvidos do continente africano estão nessa região. Tratam-se de duas nações insulares, Seicheles e Ilhas Maurício. O primeiro é um arquipélago que fica no Oceano Índico, a nordeste de Madagascar. Ficou independente da Inglaterra apenas em 1976, mas já ocupava a 50º posição no ranking de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2008. Só a quesito de comparação, o Brasil ocupava, então, o 70º lugar.

As Ilhas Maurício ocupavam o 65º lugar no ranking da ONU de 2008. Esse país foi uma colônia que esteve sobre o controle dos portugueses, holandeses, franceses e ingleses. A independência só aconteceu em 1968. Apesar de o inglês ser a língua oficial do país, é falado apenas por 1% da população. O idioma corrente é o creole.

Mas o país mais conhecido da região é a África do Sul e não é apenas porque ele foi sede da Copa do Mundo de 2010, mas devido a fatos históricos importantes. Foi nesse país que viveu Nelson Mandela (imagem acima), um ativista ferrenho contra o regime segregacionista que vigorava no país, conhecido como apartheid (veja quadro abaixo), e um dos ex-presidentes da nação sul-africana.

O que foi o Apartheid?

Foi um regime de segregação racial adotado na África do Sul entre 1948 e 1994. Por causa dele, a maior parte da população do país, que era negra, tinha seus direitos cerceados. Não podiam, por exemplo, frequentar determinadas áreas das cidades, como bairros, hospitais, escolas e praias reservados para os indivíduos brancos.

No final da década de 70, os negros foram privados de sua cidadania, tornando-se cidadãos de uma das dez pátrias tribais do país, conhecidos como bantustões. Uma vez que não eram cidadãos sul-africanos, não podiam se candidatar ao cargo de presidente.

A insatisfação da população negra foi tão grande que começou um forte movimento de resistência. Muitas revoltas populares e protestos fizeram com que o apartheid chegasse ao fim, mas isso só aconteceu em 1994, quando foram realizadas as primeiras eleições multirraciais e democráticas.

Etnias da África Meridional

Vamos conhecer, agora, três dos povos que habitam essa região: os Zulu, os Kalanga e os Betsimisaraka.


Zulu

Povo banto e maior grupo étnico da África do Sul. Estima-se que existam entre 10 e 11 milhões de zulus vivendo majoritariamente na província de KwaZulu-Natal. Números menores podem ser encontrados no Zimbabwe, na Zâmbia, na Tanzânia e em Moçambique. Falam Zulu, uma língua banta e a população moderna dessa etnia está distribuída tanto em áreas urbanas quanto rurais.

Os Zulus formaram um estado poderoso, em 1818, sob a liderança de Shaka, rei que ganhou grande respeito de várias tribos. No final do século XIX, entretanto, esse povo entrou em conflito com os ingleses. Em 1879, teve início uma guerra entre os dois povos, que foi vencida pelos colonizadores.

Uma curiosidade do povo Zulu é em relação às vestimentas femininas. As mulheres se vestem de forma diferenciada, de acordo com seu respectivo o estado civil. Mulheres solteiras têm orgulho de seu corpo e não têm vergonha de mostrá-lo. Só vestem saias curtas, feitas de grama ou algodão. Mulheres comprometidas, por outro lado, deixam o cabelo crescer e cobrem os seios com um pano decorativo, feito em respeito aos futuros parentes. Já a mulher casada, cobre o corpo completamente.

A maior parte dos Zulus acredita do cristianismo. Ainda assim, muitos mantêm crenças pré-cristãs e cultuam os antepassados. Há, também, na religião tradicional desse povo, a figura do adivinho, que consegue estabelecer contato com o mundo espiritual.


Kalanga

Um dos primeiros povos banto a migrar para o que se tornaria o Botswana, passaram, antes, pela região da África do Sul. Constituem um grupo étnico relevante, com mais de 920 mil indivíduos ao redor do mundo, e falam a língua banta Kalanga. Na língua local, essa palavra significa “Povo do Sol”.

São, majoritariamente, agricultores e cultivam milho, abóbora e inhame. Também mantêm pequenos rebanhos de gado, que eram utilizados para sacrifícios religiosos e como pagamento do dote da futura esposa. A terra é o principal bem desse povo, pois é dali que ele tira seu sustento e, também, poder e influência sobre os outros membros da aldeia.

Praticam uma religião étnica que está profundamente enraizada na identidade desse povo e é baseada no culto aos ancestrais. Eles acreditam que são controlados por espíritos antigos de pessoas que já morreram, como pais, mães, avós, tios, etc. Muitos indivíduos também acreditam no cristianismo.


Betsimisaraka

Os Betsimisaraka são um povo de Madagascar que ocupa a maior parte do litoral oriental da ilha. Representam, aproximadamente, 15% dos povos malagaxes e são o segundo maior grupo étnico encontrado na ilha, com cerca de 1 milhão de habitantes. Essa etnia é composta por vários subgrupos que foram unificados por circunstâncias históricas.

Esse povo fala uma série de dialetos da língua Malagasy, que faz parte do grupo linguístico Malaio-Polinésio. São sedentários e, em sua maioria, vivem da agricultura e da pesca. O arroz é o alimento básico desse povo, mas eles também plantam café, baunilha, cravo e pimenta. Constroem casas a partir de materiais vegetais, com a palma sendo utilizada para cobrir as paredes e o telhado da habitação.

Os Betsimisaraka adoram a dança e vivem balançando os quadris em ritmos lentos que lembram as danças polinésias. São reconhecidos por sua natureza calorosa,  generosa e são muito hospitaleiros.

Praticam uma religião étnica antiga que cultua os ancestrais. Estes influenciam na vida dos vivos e são importantes na medida em que contribuem para a constituição de uma identidade social. Esse povo também sacrifica gado nas cerimônias feitas em respeito aos antepassados.